"Na noite em que bebeste medronho, e me pediste a lua,
ouvi os deuses cantarem de dentro das pedras.
Enquanto me fazias perguntas,
e eu te olhava como se nunca te tivesse visto,
limitei-me a recolher o canto que subia da terra,
como se nele estivesse a resposta que me pedias.
E entre o pedaço de seio que subsiste dessa noite,
e a lua que não fui buscar, o tempo escorre pelas mãos
que guardaram a tua voz, como se fosse um fruto,
e a deixaram macerada nos meus ouvidos,
para que dela nascesse o licor do poema."
Nuno Júdice
Monday, October 29, 2007
Tuesday, October 23, 2007
Plano
Trabalho o poema sobre uma hipótese: o amor que se despeja no copo da vida, até meio, como se o pudéssemos beber de um trago. No fundo, como o vinho turvo, deixa um gosto amargo na boca. Pergunto onde está a transparência do vidro, a pureza do líquido inicial, a energia de quem procura esvaziar a garrafa; e a resposta são estes cacos que nos cortam as mãos, a mesa da alma suja de restos, palavras espalhadas num cansaço de sentidos. Volto, então, à primeira hipótese. O amor. Mas sem o gastar de uma vez, esperando que o tempo encha o copo até cima, para que o possa erguer à luz do teu corpo e veja, através dele, o teu rosto inteiro.
Nuno Júdice
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